Resistência e tradição: pequenos negócios ajudam a manter vivo o Centro de Goiânia

  • 14/05/2026
(Foto: Reprodução)
Como os pequenos negócios têm ajudado a manter vivo o Centro de Goiânia Cafés, livrarias, óticas, lojas de artigos religiosos, bares e bancas de jornal se misturam ao estilo Art Déco no Centro de Goiânia. Cada uma dessas portas e fachadas abriga o sonho ou o sustento de alguém, mesmo que, nos últimos anos, o bairro tenha sofrido com um processo de esvaziamento motivado por mudanças sociais e econômicas, segundo comerciantes e especialistas. Nos tempos de ouro, o Centro da capital tinha uma grande concentração de empresas, além de uma vida noturna movimentada. Para a gerente da regional central do Sebrae Goiás, Larissa Ribeiro, entre os motivos para a queda da quantidade de comércios estão a digitalização dos negócios e a criação de outros centros comerciais. “ A presença digital desses negócios e a forma de consumo está se transformando. Isso acelerou com a pandemia. Nós tínhamos uma característica de centro comercial, onde as pessoas se deslocavam para trabalhar, onde havia uma concentração de empresas, onde você fazia o consumo. Quando essa densidade é retirada e diminui a população no Centro, você tira esse movimento também”, explica Larissa. ✅ Clique e siga o canal do g1 GO no WhatsApp De acordo com a Receita Federal, em 2026, mais de 23 mil pequenos negócios - empreendimentos com foco em serviços locais - estão registrados no Centro de Goiânia. Não é possível atestar que todos esses comércios estejam, de fato, ocupando salas e lojas presencialmente. Ainda assim, o número é expressivo e demonstra como empreendedores e moradores não desistiram do Centro. Comerciantes afirmam que é comum escutar que “o Centro está morrendo”, mas eles se negam a deixar que essa frase se concretize. Paulo César na loja Feião Hocus Pocus, em Goiás Fábio Lima/O Popular Resistência cultural Na esquina da Avenida Araguaia com a Avenida Paranaíba, Paulo César de Oliveira Assunção, de 60 anos, e os irmãos Luiz e Júnior, ocupam um espaço de resistência contra esse movimento de esvaziamento do Centro de Goiânia. Sentado na calçada, rodeado de objetos antigos, como telefones de disco, televisões de tubo e outros objetos que dão a ilusão de que aquele lugar é um espaço preservado no tempo, Paulo César conta como a Feirão Hocus Pocus funciona no mesmo local há 34 anos. A loja tem cerca de 10 mil itens, entre livros, fotografias, discos de vinil, CDs, DVDs e muito mais. Conhecida no cenário rock e geek da cidade, é um ponto de cor e vida em meio a tantas portas fechadas. Segundo Paulo César, ele e os irmãos não conseguiram enriquecer com o negócio, mas a satisfação de contribuir culturalmente com a cidade e com a sobrevivência do Centro é um “misto de paixão e teimosia”. "Eu assusto aqui nessa questão da responsabilidade de estar aqui no centro como uma loja cultural que está aqui como resistência cultural, eu sempre falo que a gente é como se fosse um ponto de resistência cultural", afirma. Com o gato Chuchu no colo, o comerciante conta que a loja começou como uma banca na Feira Hippie e tomou forma após a compra de um lote de vinis em São Paulo. Daquela esquina, Paulo César observou as mudanças no bairro nas últimas três décadas. Feirão Hocus Pocus De acordo com ele, o Centro, gradualmente, perdeu espaço na rotina do goianiense. Apesar disso, Paulo defende que a loja contribui com a manutenção da vida naquela esquina, ocupando um pedaço do bairro que poderia estar vazio como muitos outros na mesma avenida. “A contribuição que a gente dá, é dar vida a essa esquina aqui. Essa esquina, acho que sem a gente, seria mais uma esquina”, disse ele enquanto olhava para o outro lado da rua, onde uma esquina idêntica, mas com uma grande placa de ‘aluga-se’, espelhava o futuro daquele endereço em outra realidade. Além de persistir em meio às adversidades no Centro, o Feirão é parte ativa da vida cultural naquele espaço, com ações que extrapolam o comércio, como os shows de rock que acontecem todos os anos, no aniversário da loja, e enchem a rua de vida mais uma vez. Mistura de tradição e o novo O arquiteto e empresário Áureo Rosa, de 30 anos, tem dois “filhos” no Centro: o Zé Latinhas e o Maria Garrafinhas. O “menino” é um bar fundado pelo seu avô na década de 1960, considerado o mais antigo de Goiânia, segundo ele. Em 2020, Áureo assumiu a administração do bar, mas a realidade não era a mesma de antigamente, quando o Zé era um ponto de encontro de políticos e da elite intelectual da época e a Rua do Lazer era uma das ruas mais badaladas da capital. Mestre em urbanismo, o proprietário fala sobre como o cenário era desanimador quando ele e outros dois sócios decidiram dar “vida nova” ao bar, que funcionava como restaurante. “Existia muito esse estigma do Centro, pouco se debatia sobre. [...] Eu estudo sobre o Centro a vida inteira, e até na faculdade se falava do Centro como uma coisa morta e sem solução, não se discutia um novo Centro, outra possibilidade”, conta ele. Bar Zé Latinha, na Rua 8 Arquivo pessoal/Lucas Lopes Por entender que esse negócio tinha muito mais a oferecer para o bairro, e vice-versa, Áureo criou com o Zé Latinhas um movimento de chamamento à vida noturna do bairro, que foi ouvido pela boemia goianiense. “Nossa comunicação desde o começo foi marcada por isso: ‘Vem para o Centro. A gente convida sempre as pessoas a virem para os bares, virem para o bairro. Dificilmente a gente fala ‘vem para o bar’, é ‘vem para o Centro’, porque não é só o bar, é toda a questão histórica do Centro, visitar, passar o dia...”, comentou sobre a virada de chave do Zé Latinhas. Segundo Áureo, o Zé, que era quase sozinho naquele endereço, hoje compartilha a rua com cerca de 15 bares. O sucesso na Rua 8 possibilitou até mesmo a inauguração de sua “irmã”, o Maria Garrafinhas, que fica na famosa Rua do Lazer. “O Centro tem todos os problemas que a gente sabe que tem desde sempre, mas tem um pessoal aqui que está resistindo e está fazendo uma coisa interessante. É um espelho do que a cidade pode se tornar”, disse ele. Inauguração do Maria Garrafinha, em agosto de 2025 Arquivo pessoal/Lucas Lopes Há alguns metros dali, na Rua 4, um comércio iluminado também encontra força na tradição de um negócio familiar. Adriana e Edmilson Neves, de 51 e 48 anos, têm uma loja de lâmpadas há 30 anos naquela mesma rua e são referência para os clientes de longa data. O casal faz parte dos comerciantes que participam da vida diurna do bairro, que carece do apelo cultural e do lazer das noites na Rua 8. Ao g1, Edmilson contou que abriu a loja durante o “boom” da Rua 4, famosa pelas lojas de calçados. Com a mudança no perfil dos consumidores e o fechamento de muitos comércios, a tradição e a fé de que as coisas podem melhorar são o que faz com que eles abram as portas todos os dias. Edmilson e Adriana estão há mais de 30 anos com a Show Luz na Rua 4 Fábio Lima/O Popular “Não existe cidade sem Centro. A gente acredita no bairro. Achamos que os clientes também acreditam que podem encontrar as coisas aqui”, destacou Adriana. Com raízes profundas no bairro centenário, eles tentam se atualizar com a implementação de serviços mais modernos na loja, como iluminação em LED e o início de uma presença online para complementar o negócio. Esperança Na próxima esquina da Avenida Araguaia, um pouco depois do Feirão Hocus Pocus, uma loja grande, colorida, com tons de verde, amarelo, azul e vermelho, ajuda a trazer alegria ao bairro com mais um canto de vida. Atrás do caixa, com um olhar sério, mas muito simpático, Maria Verônica Alves de Azevedo, de 59 anos, cuida da loja Naturais Alimentos, que abriu com o marido há mais de 20 anos. No ambiente alegre, ela serve almoço vegetariano e vende granola, castanhas, açaí e uma variedade de grãos e farinhas. Na hora do rush, por volta das 12h, é difícil conseguir sua atenção em meio ao vaivém dos clientes. Maria Verônica tem duas lojas de produtos naturais no Centro de Goiânia Fábio Lima/O Popular Sua história não é muito diferente das demais. Também chegou ali nos tempos áureos do bairro e até abriu uma segunda loja na Avenida Tocantins, onde ficam o marido e o filho, mas hoje descreve o dia a dia do empreendedor no Centro como algo desafiador. Mesmo assim, diz se sentir privilegiada por viver o sonho do próprio negócio em um dos setores mais bonitos de Goiânia. “O que me mantém aqui é a esperança de dias melhores. Eu gero emprego, pago impostos e é um sonho que eu tenho com a minha família e que eu vou levar adiante, vou continuar sonhando”, disse ela. No mesmo ponto há mais de 20 anos, ela tem esperança de que as vendas melhorem Fábio Lima/O Popular Futuro De sua cadeira na calçada da Hocus Pocus, Paulo César faz planos para os comércios vazios e defende que as pessoas precisam “viver” o Centro, pois se tornou algo maior do que um lugar onde se faz compras. “As pessoas querem entrar, comprar, voltar pro carro e ir embora, mas é mais do que isso. É isso que é vida, né? A pessoa deixar o carro ou vir a pé, passear, dar um rolê no Centro, fazer um tour”, defendeu. Já Áureo, do Zé Latinhas, enxerga a mudança na geração mais jovem, que tem um novo olhar para o Centro, mais positivo. “Eles já olham para o bairro como um lugar legal, que dá para ir à noite, que tem vários bares com atrações diversas de todos os tipos: ‘É um lugar que eu posso ir”. Centro de Goiânia, Goiás Fábio Lima/O Popular Delci Meireles é corretor de imóveis e mora no Setor Central há três anos. Segundo ele, o bairro teve uma melhora significativa nos últimos tempos com a criação de novos comércios, principalmente bares. “Aqui tem tudo. Tudo o que você precisar, você resolve a pé. Farmácia, padaria, restaurante. Às vezes, fico uns quatro dias sem tirar o carro da garagem”, explicou sobre a importância desses comércios para o dia a dia de quem mora no bairro. Caminhos Larissa Ribeiro, do Sebrae Goiás, afirma que os pequenos negócios são o caminho para esse novo perfil do bairro durante sua recuperação. Ela destaca que o fluxo de pessoas é fundamental para que o “ecossistema” do bairro continue funcionando. “Os pequenos negócios são a vida, o que faz pulsar o Centro de Goiânia”, afirmou. Para ela, o caminho vai na contramão de tentar “voltar ao que era antes” e transformar o bairro em algo novo, para revitalizar a experiência do cliente por meio de cultura, história e conexão por meio do que as ruas do Centro e esses comerciantes carregam. “É muito importante que ele [o empreendedor] conte essa história e use toda essa retórica, essa experiência de estar no Centro a favor e como argumento de venda”, explica. Medidas públicas Nos últimos anos, o poder público tem realizado algumas iniciativas para ajudar na recuperação do Centro de Goiânia. Adonídio Neto Vieira Júnior, secretário Municipal de Desenvolvimento, Indústria, Comércio, Agricultura e Serviços, disse que a prefeitura realizou intervenções no bairro, tanto para atrair mais moradores, quanto para aumentar o empreendedorismo na região. “Isso já vem dando resultado, segundo dados da Junta Comercial do Estado de Goiás, de janeiro do ano passado a fevereiro desse ano, o Centro de Goiânia figura em quinto lugar entre os bairros da cidade com mais aberturas de empresas”, afirmou. Veja outras medidas destacadas pela prefeitura: revitalização da Rua do Lazer, que foi reconhecida como patrimônio imaterial da cidade; diminuição do número de camelôs no bairro para valorizar o comércio local; projetos como o Morar no Centro e o Revitaliza. Além disso, os comerciantes podem procurar orientação na Casa do Empreendedor, espaço coordenado em parceria com o Sebrae, para “apoiar, orientar e impulsionar quem deseja empreender ou já possui um negócio” e acessar outros serviços da entidade para aconselhamento e até orientação para começar no ambiente digital. O Centro pode não ser cheio de gente como antigamente, mas é fato que o bairro permanece cheio esperança. Enquanto o comércio dá vida ao bairro, trazendo pessoas e recursos, o Centro também dá vida a esses empreendedores, alimentando sonhos e o desejo de um futuro melhor. 📱 Veja outras notícias da região no g1 Goiás. VÍDEOS: últimas notícias de Goiás

FONTE: https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2026/05/14/resistencia-e-tradicao-pequenos-negocios-ajudam-a-manter-vivo-o-centro-de-goiania.ghtml


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